sexta-feira, 15 de outubro de 2010


Fonte e Foto: Carina Seles, por Jornal Boqueirão

O desenvolvimento de um modelo de bengala para pessoas com necessidades especiais comprova que, com dedicação e vontade, obstáculos podem ser superados


Tudo escureceu com um murro. Em 2006, o técnico em Engenharia Eletrônica, Edson Moura, hoje com 42 anos, ficou cego do olho direito, resultado da pressão intraocular da agressão, resultando em um glaucoma. Algum tempo depois, devido a medicamentos e problemas de saúde, Moura ficou cego também do olho esquerdo.

Ao longo de sua vida, Moura, que também é formado em Administração de empresas e Ciência da computação e formação em desenho, sempre direcionou seus conhecimentos em prol às pessoas com necessidades especiais. Dois anos antes do fato que marcou sua vida, o técnico em Eletrônica idealizou um projeto social, Olhos Solidários/Ombro Amigo. “Fui preparado por Deus”, disse Moura, “já tinha desenvolvido o projeto antes de ficar cego”.
O projeto

O projeto Olhos Solidários/Ombro Amigo consiste em fabricar bengalas readaptadas a pessoas com necessidades físicas e visuais. Elas são feitas em fibra de carbono ou alumínio, e mais leves do que as tradicionais, podendo chegar a 100 gramas, no caso da fibra de carbono. As tradicionais chegam até 280 gramas. Moura fez uma releitura do material, com equilíbrio entre capacidade de impacto e resistência.

Inusitado, o engenheiro desenvolveu bengalas com materiais requalificados como segmentos de vara de pesca, bolinhas de pebolim com micro rolamentos, para facilitar locomoção de deficientes visuais, alça longa de celular, borrachinhas de cadeira e, no caso de bengalas de apoio, manopla da troca de marcha de carro. “As bengalas comuns são desajeitadas e pesadas. Não são feitas de cego para cego. Assim, fica difícil. O material, por exemplo, do apoio normalmente feito de plástico, dá calos”, afirma, “Desenvolvi uma bengala com o apoio do grip da raquete de tênis, muito mais confortável”.



São mais de 10 projetos com modelos diferentes, incluindo a bengala para natação. Nas competições paraolípicas, o nadador é avisado que está chegando ao final da piscina. A bengala readaptada é maior, com cerca de dois metros de comprimento e possui uma bolinha na ponteira, para não machucar o nadador ao ser avisado do fim da piscina.

Todo o trabalho de confecção é feito por ele, tanto em marcenaria quanto em serralheria. Moura corta os pedaços das bengalas fixas e dobráveis, com medidas exatas através de um gabarito, uma peça de madeira com as medidas em baixo relevo, em metros e em polegadas.
O tamanho também é diferente. As bengalas tradicionais são confeccionadas de acordo com a altura do cliente, diminuindo entre 40 a 50 centímetros, abaixo ao osso esterno. A bengala confeccionada pelo engenheiro é um pouco maior, permitindo que a pessoa fique mais ereta.

Dificuldades e preconceito

Segundo Moura, os próprios portadores estão quebrando o paradigma do preconceito. Bengalas personalizadas com glitter, pintadas de rosa, de dourado, com o símbolo do time, são os pedidos dos clientes que, mesmo não podendo enxergar, querem fazer moda. “Uma menina me ligou só por que descobriu que eu fazia bengalas rosa. Encomendou uma, sendo que antes não queria usar”, disse. O material é estilizado pelo plastimodelista Marcelo Torres Homem.

Além das ruas esburacadas, “em braile” como brinca o engenheiro, e dos perigos na parte superior do corpo, como árvores baixas, Moura atenta para um fato muito comum. Segundo ele, as pessoas quebram as bengalas na rua e não as repõem. “Apenas se desculpam rapidamente. O problema é que ninguém ajuda ao deficiente visual depois do acidente. Assim, ele fica com o prejuízo e sem o guia”, afirma.

A estilização, segundo Moura, ajuda as pessoas visualizarem a bengala, indicativo de uma pessoa que necessita de espaço para movimentá-la na frente do corpo.

Ele explica de forma filosófica o porquê há o preconceito. “As pessoas são criadas dentro da filosofia platônica, onde o diferente é bloqueado pelo cérebro. Quem enxerga não quer ver”, afirmou.

Doações

A Associação Bengala Leve, sob a presidência de Edson Moura, aceita doações para confecção de bengalas. As doações podem ser feitas de duas formas. A doação direta é feita no caso de compra para uma pessoa conhecida. A doação participativa é aquela na qual se junta dinheiro para doar uma bengala para um portador que ganha um salário mínimo.

O valor da bengala estilizada pode variar de R$25 a R$100, dependendo da arte gráfica. Sua meta é chegar a 500 bengalas por ano. “Isso seria muito satisfatório para mim e para as pessoas que não têm condições”, finalizou.

Para fazer a doação, o interessado deve depositar qualquer valor na conta destinada para doação participativa: Caixa Econômica Federal - Conta Participativa - Agência 0366 - Operação 013 - Conta 10765-7. Quem estiver interessado em fazer uma bengala sob encomenda deve depositar o dinheiro na conta para a doação direta e preencher o formulário de solicitação. Doação Direta - Agência 0366 - Operação 013 - Conta 8805-9. Mais informações: abenleve@uol.com.br ou 9714-5163/8111-3707/3012-9607.
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